Da nudez à Tendência

Da nudez à Tendência

Hoje a Belicio vai contar uma História, de mudanças e movimento. Ela começa antes mesmo da própria escrita, na Era da Pedra Lascada. Começamos pelo adorno, sabia que ele é anterior a veste? Pinturas e aplicações na pele vieram primeiro, os arqueólogos especulam que as razões sejam de ligação espiritual e de distinção dos integrantes de uma a outra tribo. Já as peles de animais, jamais foram apenas uma proteção, era um indicador de força, domínio e poder sobre a sobrevivência para os demais. Posteriormente, o ser humano aprende a cultivar e criar animais, daí surgem os primeiros assentamentos, as primeiras comunidades. Agora há tempo para desenvolver o intelecto, a beleza e a filosofia. É nesse contexto que a Grécia Antiga se estabelece enquanto potência identitária. O drapeado nasce enquanto arte e a arquitetura agora se inspira nas vestes. Alexandre o Grande, então, unifica o território Macedônico, o intercâmbio cultural é real. Podemos ver as primeiras expressões de identidade em massa.

Alexandria tem sua queda com a morte do seu Imperador, Roma avança, mas cai em conflitos políticos, então surge a duradoura Idade Média, estamental e com papéis sociais fixos, sem qualquer espaço para expressões de identidade, até que surge um crescente grupo de comerciantes que consegue imitar aqueles que estão no poder socioeconômico. A Nobreza não aceita isso bem, e a cada cópia, muda o que se usa. Podemos dizer que a burguesia trouxe o primeiro jogo de tendências. Ao seu contraponto desta época, surge a necessidade de mais cores, texturas, odores e sabores: chegou a hora das Grandes Navegações, o mundo agora está em expansão e a realidade se torna questionável. O que pode existir para além do mar? A curiosidade aguça a criatividade e entramos no movimento dos exageros. No período Barroco era de suma importância afirmar sua posição social por meio de imensas e volumosas roupas, perfumes, carruagens, castelos, enfim, o lifestyle se torna acima de tudo, poder. Quanto mais variado e inusitado o que você usava mais importante você era, por isso hoje temos tanta fonte imagética de estudo sobre moda no período por meio de pinturas, esculturas e escrita, além do acervo de museus. Não é por menos que nosso país leva o nome de uma belíssima tintura rubra usada na indumentária Real.

Iluminismo, Revolução Francesa, e Revolução Industrial, agora seu trabalho representa seu nome, não mais sua herança nobre. As vestes necessitam de mobilidade para o meio urbano, que só cresce e cresce. Aqueles países que foram pioneiros na expansão estavam a se engalfinhar pelo poderio nos territórios dominados, a primeira fase da globalização já aconteceu, estamos na Primeira Guerra Mundial. As mulheres necessitam de ir ao trabalho enquanto os homens vão à luta, é um período duro, mas teve uma consequência graciosa a quebra do domínio dos corpos femininos por vestes que viabilizaram o movimento do corpo, que agora precisa andar, dobrar, respirar, habitar o cotidiano. Coco Chanel entra em cena com o  vestido jersey e peças e antes eram do masculino agora para o guarda roupa feminino, a cintura passa a ser mais solta, os tecidos leves e resistentes e as peças funcionais com bolsos práticos e cortes retos. Os sapatos mais fechados e baixos e o cabelo passa a encurtar. Aqui nasce a mulher moderna!

Instabilidade econômica e espírito revanchista eclodem a Segunda Guerra Mundial pouco depois, nela o sistema ready-to-wear surgiu porque o mundo não tinha mais tempo, recursos ou mão de obra para depender de roupas sob medida. Dior apresentou o New Look, ele surgiu como uma ruptura desse período. As saias amplas, cinturas marcadas e volumes generosos iam na contramão da estética econômica da guerra. Era uma proposta que devolvia fantasia e estrutura, marcando a volta do luxo após anos de escassez. É nesse contexto que, após duas guerras, o Mundo tentou ao máximo segurar para não eclodir a terceira com o que restou de recursos das principais potências. Neste período a Guerra foi Fria: disputa de influência e tecnologia com a mão invisível atuando nos países mais fragilizados. Enquanto isso a Ciência cria a revolução feminina, a pílula anticoncepcional: já havia liberdade dos corpos, agora as mulheres  também conquistam o destino de suas vidas. Os jovens que cresceram retraídos com conflitos bélicos querem se libertar e não queriam mais lutas, querem usar cores e curtir o sol, eis o Movimento Hippie! O industrial não sobressai mais, já consumiu muito o planeta, que está em crise, a moda é sustentabilidade e criatividade e revolução. Mary Quant diz que a saia é mini, e para a mulher que agora pode ser de negócios Yves Saint Laurent cria o smoking feminino. Um alívio alegre depois de um grande período de tensões e conflitos, o mundo volta a sonhar.

Às vezes parece que dizer que algo “tá na moda” é fútil ou besteira, mas este é o caso contado do seu mundo. Ela dita tendências, mas o que são tendências? São tudo que a gente quer ouvir, ou melhor, que necessita vestir, pelo tempo e pelas ideias. A vida inventa a Moda, vamos juntas imaginar uma Vida Inventada?


Eduarda Barros | Equipe Belício.

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